Determinístico ou Estocástico?
- marciliopires
- 26 de jan.
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Atualizado: 27 de jan.
Em um curso de engenharia eletrônica há um conjunto de matérias que trata de algo muito interessante que é a parte de processamento de sinais estocásticos. Essa palavra (estocástico) é algo não muito conhecido e o seu significado é de extrema importância, não somente na engenharia, mas, sobretudo na vida.
Sinais estocásticos são aqueles que não são previsíveis no tempo. O maior exemplo é o ruído, ele está presente em todos os sistemas nas amplitudes, fases, e outras características dos seus sinais e são completamente desconhecidos até o momento em que eles ocorrem, mas ele pode ser modelado e as suas probabilidades podem ser determinadas, mas somente as probabilidades. Nesse cenário todos os circuitos, amplificadores, sistemas são ajustados para uma relação sinal/ruído que seja adequada ao funcionamento do sistema.
Por outro lado, a ciência determinística é aquela na qual sabendo as condições iniciais e as leis que regem o fenômeno, podemos calcular o que irá acontecer no resto da vida daquele sistema, desde que outras coisas não previstas nas condições iniciais ocorram. Posso citar como exemplo as leis de Kepler, uma maravilha da criação humana, na qual Kepler foi capaz de determinar as órbitas dos planetas, suas relações de período , com precisões fantásticas, mesmo sem o uso de lunetas. O determinismo é uma conquista de várias áreas da ciência e , certamente influenciou a forma de pensar das pessoas.
Tenho a certeza de que a forma de pensar científico acaba influenciando a filosofia, que por sua vez impacta na educação e na forma de pensar das pessoas. No final do século XIX, o determinismo havia atingido um grau de sofisticação com as leis de Newton, a Termodinâmica clássica e as equações do eletromagnetismo de Maxwell que fez com que o professor de Planck dissesse a ele para não se dedicar à Física porque tudo que havia para ser descoberto já havia sido descoberto.
Fenômenos como a irradiação do corpo negro, efeito fotoelétrico, desenvolvimento do modelo do átomo, dentre outros, exigiu uma mudança de paradigma, O princípio da incerteza de Heisenberg, que afirma que não é possível determinar simultaneamente, com 100% de precisão, a quantidade de movimento e a posição do elétron, o caráter dual da luz, ora se comportando como ondas e ora se comportando como partícula, a extensão desse conceito ao elétron, dentre outros fizeram com que a probabilidade e toda a sua matemática se fizessem necessárias para entender a natureza.
E nós? onde ficamos no meio disso tudo? O paradigma de que a vida é determinística nos encanta. Nascemos, vamos à escola, preparamo-nos para a vida, escolhemos nosso companheiro, temos filhos, envelhecemos e morremos, ou seja, temos um roteiro pré-estabelecido que nos leva a uma vida com condições de contorno controladas e estabelecidas. Criamos uma expectativa. Uma frase que me marcou é a seguinte: Felicidade é realidade menos expectativa. O conceito determinístico cria uma grande expectativa e , desta forma, a nossa felicidade fica à mercê da realidade que construímos.
Ocorre que a vida é sumamente estocástica, ou seja, imprevisível até que ela ocorra. O que nos resta não é nada determinístico, é uma sucessão de eventos com suas probabilidades. Podemos trabalhar para aumentar a probabilidade daquilo que nos interessa, podemos nos cercar de seguros de vida, planos de saúde, fazer cursos, escolher cuidadosamente quem viverá ao nosso lado, mas não controlamos nossos genes (que podem fazer com que desenvolvamos patologias mais facilmente), não controlamos os outros, não controlamos a morte, não controlamos efetivamente nada. Somos gestores de probabilidades.
Li recentemente o "Reflexões", do imperador Marco Aurélio, o imperador filósofo. Os seus escritos tratam de maneira didática e impactante o estoicismo, corrente filosófica influente até os dias de hoje que tratam exatamente disso. Não podemos influenciar totalmente o que está fora de nós, mas podemos controlar a nós mesmos. Essa visão é esmagadoramente libertadora. Ela nos faz reduzir as nossas expectativas e, ao vivermos a realidade que nos é apresentada, independentemente dessa realidade, sermos felizes, estarmos em paz.
Não creio mais em determinismo, busco viver a minha vida trabalhando com as probabilidades, sabendo que ás vezes nem conheço todo o espaço amostral dos possíveis eventos. Eu creio em Deus e entendo que Ele fará o melhor por mim, mas sem buscar dominar o indominável ou controlar o incontrolável. Sou menos ansioso hoje e também mais feliz.
São José dos Campos, 26 de Janeiro de 2026.

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