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Ser irreverente não é ser irresponsável.

  • marciliopires
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Quando em 1988 eu era um cadete do 3o ano em Pirassununga, eu me deparei com um inimigo implacável na minha formação de aviador: o enjoo aéreo. Em missões onde havia muito giro de asa, g's negativos (aquele que dá sensação de gravidade negativa),eu vomitava e , num belo dia, o meu instrutor veio falar comigo:"Faria Pires, se os instrutores tiverem que assumir os comandos do avião todas as vezes que você passa mal, nós teremos que mandar você para o conselho de voo."


O conselho de voo era uma instituição na Academia da Força Aérea, presidida pelo comandante da escola que decidia se um cadete continuaria ou se ele seria desligado. Aquela ideia me apavorou, já eram 3 anos dedicados com empenho dentro de uma vida militar, tirava boas notas, nunca havia sido punido por qualquer condição disciplinar e a minha vida estava a ser decidida por uma coisa que não estava em mim. O meu sistema vestibular era muito sensível e eu passava mal em voo.


Inicialmente fiquei ansioso, agitado e depois, tenho certeza de que foi influência divina, comecei a buscar soluções. Eu já havia tido uma conversa com o médico do esquadrão, de quem infelizmente não me lembro o nome, e ele me disse algo como o seguinte: "Faria Pires, você está dando tudo de si?" A minha resposta foi sim, sabia o avião de cor e salteado, havia decorado bem todos os procedimentos normais e de emergência, sabia todas as manobras, potências, sem nenhum problema. Ele continuou "Você está fazendo a dieta que eu te passei para diminuir os enjoos?" Eu disse que sim, havia parado de consumir várias coisas e caprichei na parte física para aguentar bem o voo. Então ele encerrou de maneira brilhante " Então você já fez tudo o que era possível, o que resta agora é você ser mais irreverente".


Fiz uma cara de quem não entendeu nada e ele prosseguiu: " Na sua vida de aviador, você vai pegar mal tempo , pode ter panes cabeludas em voo, vai lidar com transferências indesejadas, ou seja, coisas às quais você não poderá fazer nada a respeito. Se você levar tudo muito a sério, você não vai conseguir lidar com tudo isso. A mesma coisa é no voo, você se preparou para a missão, estudou tudo o que poderia, não tem dúvida nenhuma, fez os voos mentais, você fez a sua parte, sendo assim, curta o voo. Você tem 21 anos e está tendo a oportunidade de voar uma máquina incrível. Se não der certo, não foi culpa sua". Ele continuou "Essa sua busca por controlar o incontrolável faz com que seu nível de estresse aumente e você atraia o que não quer (o desligamento) para você. Seja mais irreverente!"


Aquela ideia ficou e eu me atenho a ela até hoje. Acabou dando tudo certo, eu me formei, fui indicado para a aviação de caça, fui indicado para ser instrutor da academia e o resto é história. Quantas vezes ficamos presos naquilo que não podemos atuar, o que podemos chamar de círculo de preocupações: A situação política, a economia, o clima, a criminalidade, o resultado de uma prova, etc, etc, etc, nos esquecendo daquilo que efetivamente podemos mudar , o que chamamos de círculo de influência. Quantas horas trabalho por dia, quanto gasto com atividade física, que livros leio, que tipo de atividade tenho, como cuido dos meus relacionamentos e por aí vai.


Cuidar do círculo de influência é uma maneira de expandi-lo e fazer com que ele possa abarcar coisas que estavam no círculo de preocupação. Focar no círculo de preocupações faz com que o círculo de influência regrida e tenhamos a sensação total de inação e incapacidade.


Pensar naquilo que podemos fazer e não naquilo que nos preocupa , é a maneira garantida de atingir resultados inesperados. No meu caso, eu sei que se fizer tudo o que eu puder , no meu melhor, Deus irá completar o que falta. Até hoje foi infalível.


São José dos Campos, 03 de fevereiro de 2026.


 
 
 

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